Por que quase toda gata tricolor é fêmea? O segredo está nas manchas que surgem antes do nascimento

gata tricolor

Olhe para uma gata tricolor por alguns segundos. Uma orelha pode ser preta, a outra laranja. No meio do rosto, uma faixa branca parece separar as cores. Em outra gata, as manchas mudam completamente de lugar. É como se cada uma tivesse recebido uma pintura exclusiva.

Mas por que esse desenho aparece quase sempre nas fêmeas? E será verdade que um macho nunca pode nascer tricolor?

A resposta envolve cromossomos, células que tomam caminhos diferentes durante o desenvolvimento e uma descoberta científica publicada em 2025. Também corrige uma frase muito repetida: gatos tricolores machos existem, embora sejam raros.

Gata tricolor é uma raça? Entenda de onde vêm as três cores

Uma gata tricolor não pertence, necessariamente, a uma raça. “Tricolor” descreve a pelagem, que costuma reunir manchas laranjas, pretas e brancas. O padrão pode aparecer tanto em uma gata sem raça definida quanto em animais de diferentes raças.

Nem sempre as cores são tão intensas. Algumas apresentam áreas creme, cinza e brancas. Outras têm listras dentro das manchas escuras ou alaranjadas. Por isso, duas gatas tricolores podem ter aparências bem diferentes e compartilhar a mesma explicação genética.

A primeira curiosidade está no branco: ele não surge pelo mesmo processo que alterna o laranja e o preto. Estudos associam certas manchas brancas em gatos a variantes de uma região genética chamada KIT. Já a distribuição das áreas laranjas e escuras envolve o cromossomo X. A combinação desses mecanismos produz a aparência que conhecemos como tricolor.

Essa distinção ajuda a responder uma pergunta comum: se uma gata tem laranja e preto, mas quase nenhum pelo branco, ela também é tricolor? No uso popular, os nomes variam. Em geral, quando as duas cores aparecem misturadas sem grandes áreas brancas, a pelagem recebe o nome de escaminha. Se o branco também ocupa uma parte visível do corpo, costuma ser chamada de tricolor ou calico.

Por que algumas manchas parecem misturadas e outras, separadas?

Repare em uma gata escaminha: pequenos trechos laranjas e escuros podem se alternar por quase todo o corpo. Agora pense em uma gata com bastante branco. Nela, as outras cores muitas vezes aparecem em áreas maiores e mais fáceis de distinguir.

As duas aparências têm algo em comum. Tanto a escaminha quanto a tricolor mostram que diferentes grupos de células passaram a expressar cores distintas durante a formação do animal. O branco acrescenta outra característica à pelagem e pode mudar bastante o aspecto final das manchas.

Não há uma instrução genética única dizendo onde deve ficar uma mancha sobre o olho ou qual cor terá a ponta da cauda. É por isso que procurar duas gatas com desenhos perfeitamente iguais seria uma tarefa tão difícil.

Por que quase todas as gatas tricolores são fêmeas?

Aqui está a parte central da história. Em geral, as fêmeas têm dois cromossomos X. Os machos têm um X e um Y. A característica genética ligada à cor laranja fica no X. Assim, uma fêmea pode receber uma versão relacionada ao laranja em um cromossomo X e outra relacionada à cor escura no segundo X.

Só que ter essas duas informações não bastaria para desenhar manchas. O que acontece depois é o detalhe fascinante.

O segredo das cores começa antes mesmo de a gatinha nascer. Durante o desenvolvimento, cada célula inativa um dos dois cromossomos X. Em algumas regiões, permanece ativo o X ligado ao laranja; em outras, o ligado à cor escura. Conforme essas células se multiplicam, surgem grupos que darão origem a pelos de cores diferentes.

Imagine uma pequena área da pele na qual várias células descendem de uma célula que manteve ativo o X ligado ao laranja. Ali, cresce uma mancha alaranjada. Em uma área vizinha, outro grupo manteve ativo o X relacionado à cor escura. Desse encontro nasce parte do desenho.

O processo se chama inativação do cromossomo X. Parece complicado, mas a ideia é simples: a gata possui duas versões da informação para essas cores, e diferentes grupos de células usam versões diferentes. A pelagem torna visível algo que aconteceu durante sua formação.

As manchas mudam de lugar conforme a gata cresce?

Não. A gata não acorda com uma mancha laranja nova porque mudou de alimentação ou de ambiente. O desenho começa a se estabelecer durante o desenvolvimento e acompanha o crescimento do animal.

Um filhote pode parecer diferente quando o pelo fica mais comprido, troca de textura ou recebe outra iluminação. Ainda assim, a distribuição básica das cores não é sorteada novamente a cada fase da vida.

Há mais uma curiosidade: nem mesmo a mesma combinação genética garante manchas nos mesmos lugares. Como a inativação de um dos cromossomos X acontece de forma aleatória nas células, os limites entre as áreas coloridas podem variar. A Universidade da Califórnia em Davis observa que até gatas geneticamente idênticas poderiam apresentar padrões tricolores distintos.

O que a ciência descobriu em 2025 sobre o pelo laranja?

Por muito tempo, pesquisadores souberam que a cor laranja dos gatos estava ligada ao cromossomo X. Faltava localizar com precisão a alteração no DNA responsável por ela. Era como conhecer o endereço de uma rua, mas ainda procurar o número da casa.

Em 2025, dois estudos publicados na revista científica Current Biology associaram o pelo laranja a uma pequena deleção, ou seja, à perda de um trecho de DNA, em uma região do gene ARHGAP36. As pesquisas indicaram que essa alteração modifica a atividade do gene nas células que produzem a pigmentação do pelo, favorecendo tons alaranjados.

A descoberta não mudou o que vemos quando olhamos para uma gata tricolor. Ela explicou melhor por que o laranja pode aparecer ao lado do preto. Se um dos cromossomos X traz a variante ligada ao laranja e o outro não, grupos diferentes de células podem produzir áreas com cores diferentes.

Também ajuda a entender por que tantos gatos inteiramente laranjas são machos. Como o macho típico tem apenas um X, uma variante ligada ao laranja nesse cromossomo pode se expressar em sua pelagem. Já uma fêmea que recebe a variante em apenas um de seus dois X pode apresentar o mosaico de áreas laranjas e escuras.

Então sabemos onde nasceu a primeira gata tricolor?

Ainda não. Um dos estudos encontrou evidências de que a alteração associada à cor laranja é antiga e pode ter tido uma origem comum entre gatos domésticos. Isso é diferente de saber em qual lugar ou em que época nasceu a primeira gata tricolor. Os trabalhos não permitem apontar uma cidade, um país ou uma data para essa primeira aparição.

O que a ciência consegue contar é a origem genética do padrão: informações herdadas dos pais, inativação de um dos cromossomos X em diferentes células e características responsáveis pelas áreas brancas. O restante da história, como o primeiro encontro dessas características em uma gata, não ficou registrado.

Outra dúvida aparece quando uma gata tricolor tem filhotes: todos eles também serão tricolores? Não. Cada filhote recebe sua própria combinação genética. Mesmo quando herda características relacionadas ao laranja e ao escuro, ainda pode ou não receber aquelas ligadas às manchas brancas. E, caso nasça uma fêmea tricolor, ninguém consegue escolher onde ficará cada cor.

Existem gatos tricolores machos?

Sim. Eles são a exceção que desmente a frase “só fêmeas nascem tricolores”.

Um macho típico tem apenas um cromossomo X. Por isso, geralmente não possui as duas versões no X que permitem formar, pelo mecanismo mais comum, áreas laranjas e escuras. Mas alguns machos nascem com uma combinação cromossômica diferente, como XXY: dois cromossomos X e um Y.

Nesse caso, um X pode estar relacionado ao laranja e o outro à cor escura. A inativação de um deles em diferentes grupos de células permite que apareçam as duas cores. Se o animal também apresentar manchas brancas, sua pelagem poderá ser tricolor. A Universidade da Califórnia em Davis descreve essa explicação para machos calico e observa que esses animais provavelmente serão inférteis.

Mas a genética tem outras possibilidades raras. Pesquisadores também registraram machos com pelagem laranja e escura relacionados a mosaicismo ou quimerismo, situações em que diferentes grupos de células não têm exatamente a mesma composição genética. Um estudo de caso publicado em 2020 descreveu um macho escaminha fértil com quimerismo. Portanto, também não é correto dizer que todo macho com esse tipo de pelagem será estéril.

Encontrou um filhote tricolor? A pelagem confirma o sexo?

Ela oferece uma pista muito forte, mas não substitui uma avaliação. Se você encontrou um filhote com manchas laranjas, pretas e brancas, é bem provável que seja fêmea. Como existem machos tricolores, porém, o pelo sozinho não confirma o sexo em todos os casos.

Um veterinário pode ajudar quando houver dúvida sobre um filhote. Se um gato já identificado como macho apresenta pelagem tricolor, o profissional também poderá avaliar se existe alguma razão para investigar sua composição cromossômica ou saúde reprodutiva. A cor, por si só, não indica uma emergência.

E quanto à fama de “temperamental” das gatas tricolores? É uma ideia popular, mas não dá para prever o comportamento de uma gata pelas manchas. Uma pesquisa reuniu relatos de tutores e encontrou associação entre alguns padrões de pelagem e comportamentos descritos como agressivos. Como se baseou nas respostas das pessoas, o estudo não prova que a cor cause determinado temperamento. Cada gato também responde às suas experiências, ao ambiente e à forma como se sente naquele momento.

Na próxima vez que uma gata tricolor passar por você, repare nas manchas por um instante. O branco tem sua própria explicação; o laranja e o escuro revelam o que aconteceu com os cromossomos X enquanto ela se formava. Quase sempre, esse conjunto aparece em uma fêmea. E, de vez em quando, a genética produz um raro macho que nos lembra por que “quase sempre” é mais correto do que “nunca”.

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Denise Nicolau

Tutora apaixonada e criadora do Melhores Para Pet, um espaço dedicado a quem acredita que cuidar com amor faz toda a diferença na vida dos nossos animais.