A caminha está no canto da sala, o pote de água fica na cozinha e os brinquedos ocupam uma cesta. À primeira vista, parece que a casa já se adaptou ao animal. No entanto, basta observar a rotina com mais atenção para perceber que viver com um pet exige muito mais do que reservar alguns metros quadrados para ele.
O cachorro precisa atravessar um piso escorregadio para chegar ao elevador. O gato observa a rua por uma janela sem tela. No condomínio, existe um espaço pet, mas ele fica sob o sol, não oferece sombra e reúne animais de diferentes portes em uma área pequena.
Do lado de fora, a situação continua: calçadas estreitas, asfalto quente, falta de árvores, poucos pontos de água e parques nos quais tutores e animais disputam espaço com outros frequentadores.
A presença de cães e gatos nos lares brasileiros começa a mudar esse cenário. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, do IBGE, 46,1% dos domicílios brasileiros tinham pelo menos um cachorro. Os gatos estavam presentes em 19,3% das residências. Esses dados ajudam a dimensionar uma população que não vive isolada dentro das casas: ela também utiliza corredores, elevadores, calçadas, praças e parques.
Por isso, arquitetos, urbanistas, veterinários, especialistas em comportamento animal e gestores públicos enfrentam uma nova pergunta: se os pets já fazem parte da família, os lugares onde eles vivem não deveriam considerar também suas necessidades?
Uma casa bonita pode ser desconfortável para o animal
Uma residência pode parecer perfeita para uma pessoa e, ainda assim, criar dificuldades diárias para um cão ou um gato.
Pisos muito lisos, por exemplo, podem aumentar a insegurança de animais idosos, com dificuldades de mobilidade ou problemas articulares. Escadas sem proteção oferecem riscos para filhotes e cães pequenos. Janelas e varandas sem telas representam um perigo evidente para os gatos.
Além da segurança física, o projeto precisa considerar o comportamento natural de cada espécie.
Os gatos não utilizam a casa apenas na altura do chão. Eles procuram lugares elevados para observar o ambiente, descansar e se afastar quando se sentem ameaçados. Por isso, prateleiras, nichos, arranhadores altos, esconderijos e pontos de observação podem ter mais valor para o bem-estar felino do que um cômodo inteiro decorado com temas de gato.
As diretrizes ambientais elaboradas pela Associação Americana de Profissionais de Felinos e pela Sociedade Internacional de Medicina Felina destacam necessidades como a existência de um local seguro, recursos essenciais separados, oportunidades para brincar e caçar, interações humanas previsíveis e respeito ao olfato do gato.
Isso significa que colocar a caixa de areia ao lado da comida, concentrar todos os recursos em um único ponto ou impedir o animal de se esconder pode tornar o ambiente estressante, mesmo quando a decoração parece sofisticada.
Com os cães, as necessidades também variam. Um filhote cheio de energia não usa o espaço da mesma maneira que um cão idoso. Da mesma forma, um animal inseguro pode precisar de um lugar silencioso para descansar, enquanto outro precisa de oportunidades frequentes de movimento, exploração e interação.
A Associação Mundial de Veterinária de Pequenos Animais considera o ambiente adequado uma das necessidades fundamentais do bem-estar. Esse ambiente deve oferecer proteção, conforto, local tranquilo para descanso, condições de higiene e oportunidades de movimento e exercício.
Portanto, uma casa realmente preparada para pets não precisa ter luxo. Ela precisa facilitar comportamentos naturais, reduzir riscos e acompanhar a idade, o porte, a saúde e a personalidade do animal.
O condomínio tem espaço pet, mas ele funciona de verdade?
Áreas destinadas aos animais já aparecem como diferencial em muitos empreendimentos. Contudo, a placa com a expressão “espaço pet” não garante que o local seja seguro, confortável ou útil.
Um cercado pequeno, sem sombra, com piso inadequado e poucos pontos de fuga pode gerar tensão entre os cães. Além disso, reunir animais desconhecidos não significa que eles brincarão bem juntos. Alguns cães gostam desse contato, enquanto outros ficam mais tranquilos caminhando com o tutor ou realizando atividades individuais.
O planejamento também começa antes da chegada ao espaço. O caminho entre o apartamento e a área comum precisa ser considerado. Corredores estreitos e elevadores cheios podem provocar encontros difíceis, principalmente quando há cães reativos, idosos, medrosos ou com mobilidade reduzida.
Um projeto mais funcional pode prever:
percursos seguros e fáceis de higienizar;
áreas sombreadas e ventiladas;
pontos de água;
lixeiras para o descarte de dejetos;
portões duplos para reduzir o risco de fuga;
separação ou horários distintos para animais incompatíveis;
pisos que não machuquem as patas nem se tornem excessivamente quentes;
regras claras de supervisão e convivência.
Outro cuidado envolve a proximidade com apartamentos, playgrounds e áreas de descanso. Um espaço mal localizado pode aumentar ruídos, odores e conflitos entre moradores. Portanto, não se trata de escolher entre os pets e as pessoas, mas de planejar uma convivência melhor para todos.
Também é importante lembrar que nem todo animal precisa frequentar uma área coletiva. Um gato não deve ser levado a esse tipo de local apenas porque o condomínio o oferece. Da mesma forma, um cachorro que demonstra medo, tenta fugir, se esconde atrás do tutor ou reage aos outros cães não deve ser forçado a permanecer ali.
A arquitetura ajuda, mas não substitui supervisão, educação e respeito aos limites de cada animal.
Calçadas quentes e parques distantes revelam uma cidade pouco preparada
A influência dos pets não termina no portão do condomínio. Em muitas famílias, o passeio com o cachorro faz parte da rotina diária. Entretanto, as cidades nem sempre oferecem condições adequadas para isso.
Calçadas quebradas, falta de arborização, travessias perigosas e temperaturas elevadas dificultam a circulação. Em dias quentes, superfícies como asfalto e concreto podem atingir temperaturas desconfortáveis ou perigosas para as patas. Já a ausência de sombra aumenta o risco de superaquecimento, especialmente em cães idosos, obesos, de focinho curto ou com doenças cardíacas e respiratórias.
Uma cidade mais preparada para a convivência com animais não precisa transformar todas as praças em parques exclusivos para cães. Na prática, medidas que beneficiam os pets também podem melhorar a experiência das pessoas.
Calçadas acessíveis ajudam idosos, crianças, cadeirantes e tutores que caminham com animais. Árvores reduzem o calor e tornam os percursos mais agradáveis. Bebedouros, iluminação, bancos e lixeiras favorecem a permanência e a limpeza dos espaços públicos.
Algumas cidades já ensaiam mudanças. Em fevereiro de 2025, a Prefeitura de São Paulo informou que oito parques municipais contavam com cachorródromos. Nessas áreas cercadas, os cães podem permanecer sem guia, desde que estejam supervisionados. Fora delas, continuam valendo as regras de condução estabelecidas para os parques.
Esses locais podem oferecer oportunidades de exercício e interação. Porém, eles não resolvem sozinhos o desafio urbano. Se o tutor não consegue chegar ao parque com segurança, se o trajeto não tem sombra ou se bairros inteiros carecem de áreas verdes, o acesso ao lazer continua desigual.
Além disso, uma política urbana voltada ao bem-estar animal precisa considerar os gatos comunitários, os animais abandonados, o controle populacional ético, a vacinação e a educação para a guarda responsável. A cidade não é utilizada apenas pelos pets que vivem em apartamentos e frequentam parques cercados.
O pet deixou de ser um acessório, mas a cidade ainda está em transição
Durante muito tempo, os animais apareciam nos projetos somente depois que todas as decisões importantes já haviam sido tomadas. Escolhia-se o imóvel, definia-se a circulação e compravam-se os móveis. No final, tentava-se descobrir onde caberiam a caminha, o pote e a caixa de areia.
Esse raciocínio começa a mudar. Em vez de tratar o animal como um objeto acrescentado ao ambiente, novos projetos passam a considerá-lo um usuário com necessidades próprias.
A mudança também começa a aparecer nas políticas públicas. O Decreto Federal nº 12.439, de 17 de abril de 2025, instituiu o Programa Nacional de Proteção e Manejo Populacional Ético de Cães e Gatos e o Cadastro Nacional de Animais Domésticos. Entre os objetivos estão promover o bem-estar, prevenir o abandono, reduzir a população em situação de rua e favorecer uma convivência harmoniosa entre os animais e a comunidade.
O decreto não determina como casas, condomínios ou praças devem ser projetados. Ainda assim, ele reforça uma mudança de perspectiva: a presença dos animais também exige planejamento, dados e atuação conjunta do poder público e da sociedade.
Para avançar, será necessário aproximar áreas que muitas vezes trabalham separadamente. Arquitetos e urbanistas entendem circulação, acessibilidade e organização dos espaços. Veterinários e profissionais do comportamento ajudam a identificar necessidades físicas e emocionais. Síndicos, moradores e gestores públicos conhecem os conflitos e as limitações da rotina.
Quando esses conhecimentos se encontram, o resultado pode ir além de um empreendimento que se anuncia como “pet friendly”. Ele pode produzir ambientes mais seguros, funcionais e inclusivos.
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Afinal, os pets estão realmente mudando as cidades?
Sim, mas essa transformação ainda acontece de maneira desigual.
Ela já aparece nas telas de proteção, nos espaços verticais para gatos, nas áreas de higiene dentro dos apartamentos, nos elevadores com regras de circulação e nos cachorródromos dos parques. Entretanto, também esbarra em calçadas impróprias, áreas coletivas planejadas apenas como recurso de venda e soluções padronizadas que ignoram o comportamento dos animais.
A verdadeira mudança ocorrerá quando casas, condomínios e espaços públicos deixarem de apenas permitir a presença dos pets e começarem a considerar como eles se movimentam, descansam, exploram, sentem medo e interagem.
Afinal, uma cidade preparada para os animais não é aquela que espalha placas com a expressão “pet friendly”. É aquela que oferece segurança, conforto e convivência responsável para os pets, seus tutores e todas as outras pessoas que compartilham o mesmo espaço.





