Vira-lata é o queridinho dos brasileiros — então por que ainda é tão abandonado?

vira-lata abandono

Ele está nas ruas, nos abrigos, nas redes sociais e, principalmente, dentro das casas brasileiras. O cachorro sem raça definida, popularmente chamado de vira-lata, é o tipo de cão mais comum entre os tutores do país.

Uma pesquisa da Quaest realizada em parceria com a Petlove mostrou que 32% dos cães com tutor no Brasil são sem raça definida. Nenhuma raça individual chegou perto desse percentual.

Ao mesmo tempo, existe um lado menos confortável dessa história.

Levantamentos realizados por organizações que atuam diretamente no resgate mostram que os cães sem raça definida também aparecem em número muito alto entre os animais abandonados. Dados históricos do projeto Cobasi Cuida indicam que os SRDs representam mais de 90% dos resgates por abandono registrados ao longo dos últimos anos.

Como o cão mais presente nos lares brasileiros também pode ser tão comum nos abrigos e nas ruas?

A resposta não está em uma característica do vira-lata. Ela passa principalmente pela forma como adotamos, planejamos e assumimos a responsabilidade por um animal que pode permanecer conosco por muitos anos.

 

Vira-lata é mesmo o cachorro mais comum do Brasil?

Sim.

A pesquisa “O mercado pet no Brasil: afetos, cuidados e desafios”, realizada pela Quaest em parceria com a Petlove, entrevistou 1.001 pessoas em junho de 2024.

Entre os cães com tutor, a distribuição encontrada foi:

  • sem raça definida: 32%;
  • pit bull: 7%;
  • poodle: 6%;
  • shih-tzu: 6%;
  • pastor-alemão: 5%;
  • pinscher: 5%;
  • yorkshire terrier: 3%;
  • labrador retriever: 3%;
  • beagle: 3%.

A margem de erro do levantamento foi estimada em 3,1 pontos percentuais.

Portanto, quando agrupados como SRDs, os vira-latas formam de longe o maior grupo entre os cães brasileiros com tutor.

Isso também ajuda a entender por que eles aparecem com tanta frequência nas ruas e abrigos: existe simplesmente uma população muito grande de cães sem raça definida no país.

Mas o tamanho da população não explica tudo.

 

Mais de 90% dos resgates analisados eram de animais sem raça definida

O projeto Cobasi Cuida acompanha casos de abandono e resgate há alguns anos.

Nos dados de 2025, os cães representaram 54% dos animais resgatados, enquanto gatos responderam por 32% e outros animais por 14%.

Quando o levantamento observa o perfil dos animais, surge um padrão persistente: predominam animais sem raça definida, não castrados e com determinadas pelagens, como preto e caramelo entre os cães.

Considerando os dados históricos do projeto desde 2022, os SRDs representam mais de 90% dos resgates por abandono.

Isso não significa que um vira-lata individual tenha maior probabilidade de ser abandonado simplesmente por não possuir raça.

Há vários fatores envolvidos, inclusive o fato de os SRDs constituírem uma parcela muito grande da população canina.

Ainda assim, o contraste chama atenção: o cão que se tornou símbolo de afeto e identidade brasileira continua extremamente presente nas situações de vulnerabilidade.

 

Quantos cães e gatos vivem em situação de vulnerabilidade no Brasil?

Dados divulgados pelo Instituto Pet Brasil estimam aproximadamente 4,8 milhões de cães e gatos em situação de vulnerabilidade no país.

Desse total, mais de 201 mil animais estariam sob os cuidados de ONGs e protetores independentes.

A expressão “situação de vulnerabilidade” é mais ampla do que simplesmente “animal abandonado”.

Ela pode incluir animais que vivem nas ruas, dependem de terceiros para alimentação ou cuidados e aqueles acolhidos por organizações e protetores.

Ainda assim, o número ajuda a dimensionar a dificuldade.

Mesmo com campanhas de adoção, projetos de castração e uma crescente valorização dos vira-latas nas redes sociais, milhares de animais continuam dependendo de estruturas de proteção que normalmente trabalham com recursos e espaço limitados.

 

Por que tantos vira-latas acabam abandonados?

Não existe uma única causa.

O abandono de animais é um problema complexo e geralmente envolve uma combinação de expectativas equivocadas, dificuldades financeiras, reprodução sem controle, alterações familiares e falta de planejamento antes da adoção.

Um ponto especialmente importante é a percepção de que adotar um animal “de graça” significa que ele terá pouco custo ao longo da vida.

Isso não é verdade.

Independentemente da origem, um cachorro precisa de:

  • alimentação adequada;
  • vacinação;
  • prevenção de parasitas;
  • acompanhamento veterinário;
  • identificação;
  • cuidados dentários;
  • espaço e rotina compatíveis com suas necessidades;
  • atividade física;
  • enriquecimento ambiental;
  • educação;
  • cuidados em caso de doença ou acidente.

Além disso, mudanças de casa, viagens, nascimento de filhos, separações e alterações financeiras não eliminam essas necessidades.

Por isso, o principal compromisso da adoção começa depois de levar o cachorro para casa.

 

Adoção por impulso pode virar um problema meses depois

Um filhote brincalhão ou um cachorro carismático em uma feira de adoção pode despertar uma decisão emocional imediata.

O problema surge quando a pessoa só descobre depois que aquele animal:

crescerá mais do que esperava, precisa de passeios diários, late, destrói objetos quando fica entediado, exige atendimento veterinário ou não se adapta automaticamente aos outros animais da casa.

Essas situações não significam que o cachorro seja “problemático”.

Na maioria das vezes, mostram uma incompatibilidade entre as expectativas do tutor e as necessidades reais do animal.

Por isso, uma boa adoção deveria considerar perguntas simples antes da decisão:

Quanto tempo o cão ficará sozinho?

Quem cuidará dele em viagens?

Existe orçamento para emergências veterinárias?

Todos os moradores concordam com a adoção?

O imóvel permite animais?

Há disposição para lidar com adaptação e treinamento?

Responder essas perguntas antes é muito mais fácil do que tentar encontrar outro lar depois.

 

Vira-lata é mais saudável porque tem “genética forte”?

Essa é outra ideia bastante difundida.

Cães sem raça definida podem apresentar maior diversidade genética do que populações formadas por cruzamentos muito restritos. Em determinadas situações, isso pode reduzir a probabilidade de herdar duas cópias de certas variantes genéticas recessivas.

Mas isso não significa que vira-latas sejam imunes a doenças.

Eles também podem apresentar doenças hereditárias, problemas ortopédicos, câncer, doenças infecciosas, obesidade e inúmeras outras condições que afetam cães de qualquer origem.

Uma pesquisa genética recente sobre o chamado vira-lata caramelo ajuda a demonstrar justamente a complexidade dessa mistura.

O levantamento, realizado pela Pedigree em parceria com a DNA Pets, analisou amostras de 305 cães de todas as regiões do Brasil e avaliou aproximadamente 65 mil marcadores genéticos.

Foram detectadas influências de 296 raças diferentes. Entre as mais frequentes estavam pastor-alemão, american pit bull terrier, pequinês, spitz alemão e galgo espanhol.

O resultado é fascinante, mas precisa ser interpretado corretamente: diversidade genética pode trazer vantagens em alguns aspectos, porém não substitui prevenção e acompanhamento veterinário.

 

O famoso vira-lata caramelo é uma raça?

Não.

Apesar da aparência que muitos brasileiros reconhecem imediatamente, o “caramelo” continua sendo um cão sem raça definida.

A pesquisa genética encontrou uma mistura extremamente ampla, mas também algumas características físicas recorrentes.

Entre os cães analisados:

  • pastor-alemão apareceu como a influência genética mais frequente, com cerca de 19,9%;
  • american pit bull terrier apareceu em 13,6%;
  • pequinês, em 11,7%;
  • spitz alemão, em 10%;
  • galgo espanhol, em 8,7%.

A cor fulva — associada ao famoso tom caramelo — apareceu com alta frequência entre os animais estudados.

Portanto, dois cães caramelos muito parecidos visualmente podem carregar combinações genéticas bastante diferentes.

E isso é justamente uma das características mais interessantes dos SRDs: a aparência não revela uma receita genética única.

 

Aparência também pode influenciar a chance de adoção

Nem todos os animais recebem a mesma atenção dentro de um abrigo.

Idade, porte, comportamento, estado de saúde e aparência podem influenciar a decisão dos adotantes.

Os dados do Cobasi Cuida mostram uma presença recorrente de cães de pelagem preta e caramelo entre os animais resgatados.

Isso não significa necessariamente que a cor provoque o abandono. Pode refletir, entre outros fatores, o grande número desses animais na população.

Ainda assim, para quem pretende adotar, vale um exercício importante:

em vez de escolher exclusivamente pelo padrão físico, considere temperamento, nível de energia, idade e compatibilidade com sua rotina.

Um cachorro menos “chamativo” visualmente pode ser exatamente aquele que melhor se adapta à família.

 

Filhote não é necessariamente a melhor escolha

Muitas pessoas chegam a um abrigo procurando apenas filhotes.

No entanto, cães adultos possuem algumas vantagens práticas.

O porte já está definido, o temperamento costuma ser mais fácil de observar e a equipe responsável pelo animal pode fornecer informações mais concretas sobre comportamento, nível de energia e convivência.

Um cachorro adulto também pode aprender novas rotinas, criar vínculos profundos e se adaptar a uma nova família.

A idade, portanto, não deve ser vista automaticamente como uma desvantagem.

Para determinados tutores, um cão adulto tranquilo pode ser muito mais adequado do que um filhote cheio de energia.

 

O vínculo com um vira-lata não depende do pedigree

Ter ou não pedigree não determina a capacidade de um cachorro criar vínculos com pessoas.

A relação é construída pela convivência, previsibilidade, segurança e experiências compartilhadas.

Cães domésticos desenvolveram ao longo de milhares de anos uma capacidade extraordinária de interagir com seres humanos. Eles acompanham gestos, observam nossas ações, respondem à voz e estabelecem relações sociais específicas.

Por isso, um vira-lata não é uma versão “inferior” de um cachorro de raça.

Ele simplesmente possui uma ancestralidade diferente — geralmente muito mais difícil de prever olhando apenas para sua aparência.

 

Antes de adotar um vira-lata, observe estas 7 questões

A melhor forma de combater o abandono começa antes da adoção.

1. Quanto tempo você realmente tem?

Cães precisam de interação, passeios, descanso, brincadeiras e cuidados.

2. Seu orçamento comporta um animal?

Além dos gastos mensais, considere emergências veterinárias.

3. Que porte ele terá?

No caso de filhotes SRD, prever o tamanho adulto pode ser difícil.

4. Sua casa combina com o nível de energia dele?

O tamanho do imóvel é apenas parte da questão. Rotina e atividade diária também importam.

5. Existem outros animais?

A adaptação precisa ser gradual e individualizada.

6. Quem cuidará dele se sua rotina mudar?

Mudança de emprego, viagens e imprevistos precisam fazer parte do planejamento.

7. Você está preparado para 10 anos ou mais?

Adotar não é resolver apenas o presente.

É assumir uma responsabilidade de longo prazo.

 

Castração sozinha resolve o abandono?

Não.

A castração pode contribuir para reduzir reproduções não planejadas e faz parte de diversas estratégias de manejo populacional.

No entanto, o abandono também envolve educação, identificação dos animais, acesso a atendimento veterinário, fiscalização, planejamento familiar e responsabilidade dos tutores.

Portanto, não existe uma única medida capaz de resolver o problema.

É necessário combinar prevenção da reprodução indesejada com adoção responsável e manutenção do animal no lar.

 

Adotar é importante. Permanecer responsável é ainda mais

Encontrar um lar é apenas a primeira etapa da história de um cachorro resgatado.

Para diminuir de verdade o número de animais vulneráveis, é igualmente necessário reduzir devoluções, abandonos e reproduções não planejadas.

Isso exige uma mudança de perspectiva.

A pergunta deixa de ser apenas:

“Quem quer adotar este cachorro?”

e passa a incluir:

“Essa família consegue oferecer uma vida adequada para ele pelos próximos anos?”

Esse cuidado não torna a adoção mais difícil.

Torna a adoção mais responsável.

 

O paradoxo do vira-lata brasileiro

Poucos animais representam tão bem a relação dos brasileiros com os cães quanto o vira-lata.

Ele virou meme, personagem de cinema, símbolo cultural e presença habitual dentro das nossas casas.

Ao mesmo tempo, continua extremamente presente nas estatísticas de vulnerabilidade e nos abrigos.

Os números ajudam a revelar esse paradoxo.

32% dos cães com tutor são SRDs.

E, nos levantamentos históricos do Cobasi Cuida, mais de 90% dos animais resgatados por abandono eram sem raça definida.

Esses percentuais não podem ser comparados diretamente como se viessem da mesma população ou da mesma metodologia. Ainda assim, juntos mostram algo relevante:

ser popular não significa estar protegido.

O verdadeiro reconhecimento do vira-lata brasileiro não acontece apenas quando ele vira símbolo, meme ou personagem.

Acontece quando adoção deixa de ser uma decisão momentânea e passa a significar cuidado por toda a vida.

 

Leia mais

Carinho que Respeita: Onde e Como Tocar o Seu Cachorro sem Causar Estresse

Por que os cães lambem? Entenda o que esse gesto revela

A Verdade Sobre o Bem-Estar Animal: O Guia Que Todo Tutor Precisa Ler

 

 

Perguntas frequentes

Vira-lata é a maioria dos cachorros brasileiros?

Entre cães com tutor pesquisados pela Quaest em 2024, os animais sem raça definida foram o maior grupo, representando 32%.

Por que existem tantos vira-latas abandonados?

Não há uma única explicação. Grande população de SRDs, reprodução não planejada, adoção por impulso, dificuldades financeiras e falta de planejamento podem contribuir.

Vira-lata tem menos doenças?

Não necessariamente. A diversidade genética pode reduzir alguns riscos hereditários em determinadas situações, mas SRDs também desenvolvem doenças e precisam dos mesmos cuidados preventivos que qualquer cachorro.

Vira-lata caramelo é uma raça?

Não. “Caramelo” descreve principalmente um padrão visual presente em cães sem raça definida. Uma pesquisa com 305 animais encontrou influência genética de centenas de raças.

É melhor adotar filhote ou adulto?

Depende da rotina e das condições da família. Cães adultos podem ter porte e comportamento mais previsíveis, enquanto filhotes normalmente exigem mais supervisão e educação.

 

Fontes e levantamentos consultados

  • Quaest + Petlove — O mercado pet no Brasil: afetos, cuidados e desafios (2024): levantamento que encontrou 32% de cães SRD entre os animais com tutor.
  • Cobasi Cuida — Pesquisa sobre abandono de animais (2025): reúne dados de resgates e perfil dos animais abandonados, incluindo predominância de SRDs.
  • Instituto Pet Brasil — população de animais em situação de vulnerabilidade, citado em divulgação de agosto de 2026.
  • Pedigree + DNA Pets — pesquisa genética do vira-lata caramelo: análise de 305 cães e aproximadamente 65 mil marcadores genéticos.

Compartilhe esse conteúdo em suas redes sociais

Denise Nicolau

Tutora apaixonada e criadora do Melhores Para Pet, um espaço dedicado a quem acredita que cuidar com amor faz toda a diferença na vida dos nossos animais.